imersão 2010 ~ jam from Vilson Vieira on Vimeo.

1) Como começou seu trabalho com software livre? Qual seu interesse atual neste sistema colaborativo? Que você acha do hardware livre? Que acha do termo “cultura livre”?

Deveria ter uns 12 ou 13 anos quando comecei a me interessar pela cena de (in)segurança. Passava as madrugadas atrás de bugs, em salas de IRC, lendo zines. Foi em uma dessas madrugadas que conheci o Linux. Em outra, conheci o Debian, o pessoal do Debian-BR, e de lá para cá procurei formas de contribuir. Trabalhei no Debian-BR-CDD (atual BrDesktop), no CL-Weblocks (um framework para desenvolvimento Web escrito em Common Lisp) e em outros projetos envolvendo a linguagem de programação Lisp.

Desde àquelas primeiras madrugadas até hoje, todos os projetos que participo, têm uma ligação com o movimento de software livre/código aberto. Meu interesse neste movimento é tanto técnico quanto cultural. Desenvolver tecnologia é algo que não pode ser feito por pessoas em seus cubículos, isoladas. Deve haver sim um desenvolvimento individual, mas esse desenvolvimento não é nada sem a colaboração. Tecnologia que não é compartilhada é tecnologia morta. Culturalmente, acho incrível e gosto de explorar a relação que essa rede de compartilhamento proporciona às pessoas. O código está exposto, os desenvolvedores estão sempre dispostos a ouvir, ajudar e aceitar sua colaboração. Com este arranjo, não se mede mais o indivíduo pelo seu currículo ou posição social, mas pelo seu mérito. Todos têm oportunidades iguais.

Conheci o hardware livre em uma Latinoware, onde Paulo Gonçalves, Danilo César, Eloir, estavam dando uma oficina. Comprei junto com Alan Fachini uma placa Arduino e em algumas horas estávamos construindo os primeiros circuitos. Incrível! Criamos o MuSA com o objetivo de pesquisar e experimentar todo o tipo de flerte entre a computação e as artes. O hardware livre está localizado no centro desse contexto. Estamos ainda nos primórdios desse movimento. Ainda não temos hardware 100% livre. O microcontrolador ATMEGA usado nas placas Arduino é fechado. Porém, já estão aparecendo os primeiros microcontroladores livres [1]. Etienne Delacroix está trabalhando em um microprocessador livre também. É importante lembrar que mesmo o GNU não tem um kernel 100% funcional, e estamos sempre a mercê de fabricantes de hardware e sua relutância em disponibilizar drivers de dispositivos. Acredito que devemos discutir formas de alcançar essa liberdade de hardware, assim como fizemos para o software. Logo estaremos construindo nossos processadores, nossos celulares, nossos satélites, imprimindo objetos em impressoras 3D e órgão humanos em bioimpressoras.

A cultura livre é produto e meio desses movimentos de liberdade de software e hardware. Software livre é, acima de tudo, política, cultura. O grande trunfo são as pessoas, sem elas não há uso nem desenvolvimento de software/hardware. Se tirarmos o software e o hardware a cultura continua. Essa rede social colaborativa não pode mais ser desfeita.

2) Você considera-se um artista? De alguma forma você interage com circuitos artísticos, mas
parece estar interessado em ir além. Que circuitos são estes?

Me considero um artista tanto quanto me considero músico, programador, ser humano, organismo, amontoado de células. Estou começando agora com tudo isso, mas acho rícula essa santificação criada em torno do artista. Qualquer um pode sentir, criar, experimentar. Acho muito engraçado artistas multimídia que têm pavor de código-fonte, que contratam programadores. Podemos dividir um projeto artístico em iluminação e mão-de-obra? O ser iluminado do artista tem a inspiração divina e usa a mão-de-obra de alguns técnocratas para desenvolver o trabalho, com contrato e data de entrega. Como se pode criar sem experimentação?! Porque ter medo de algo que é meio e matéria de sua obra?!

Acho incrível como redes como devolts, des).(centro, Metareciclagem, CMI, se relacionam. São nessas redes que encontro verdadeiros fazedores, pensadores, fuçadores, hackers, artistas. Sinto que em muitos outros circuitos, embora esteja chegando agora e conheça muito pouco desse mundo, exista uma elitização, uma maquilagem. Muito classicismo. Arte em caixinha. Mas também meios de se fazer um grande hack.

3) O que você pensa sobre nossa localização nos mapas? É possível identificarmos um fluxo comum de pessoas que vão além de nacionalidade e fronteiras interagindo – como é possível reconhecer-nos?

A localização nos mapas não faz sentido. Estou aqui realmente? Com um laptop no colo, escrevendo um email em um software rodando em um servidor na América do Norte, vendo páginas hospedadas em mais outros tantos países. Desde muito tempo não temos mais nacionalidade. Somos produto de um meio em constante mudança territorial, seja ela real ou não. A minha localização depende de um satélite. É ele quem diz onde estou. Nem eu mesmo sei em qual latitude e longitude me encontro.

Só é possível identificar esse fluxo comum! Não sei quem são meus vizinhos, mas conheço os que querem algo próximo do que quero. Nos reconhecemos na colaboração. Na busca por algo comum. Não precisamos de bandeiras. Precisamos escrever a mensagem, passá-la adiante e receber outras mais.

4) O que é a ciência hoje? Como ela pode ir além das idiossicrasias culturais e lingüisticas de cada localização geográfica? Como ela pode ir além dos interesses geopolíticos e corporativos da globalização alienadora de subjetividades?

É ferramenta e religião. Religião bastante sincera se comparada às demais. Busca questionar. Rebelde mas com método. Imperfeita, geralmente trampolim para acadêmicos. Por causa dela, de fazedores, de hackers, é que temos a possibilidade de nos erguer e dizer: “não há barreira!”. Como filhos dessa ciência podemos construir nossas redes. Não precisamos de corporações. Ou ainda, podemos usá-las, nos apropriando de maneira alternativa de suas estruturas. Podemos unir nossos transmissores, criar repetidores, criar nosso hardware, desenvolver nosso software, aprender uns com os outros, criar nossa Internet, e fazer disso a grande mensagem a ser transmitida: junte-se nessa rede, desligue-se do que você era, crie, faça, construa, sustente-se a si mesmo e a todos.

5) O que podemos pensar para além da Internet? Que tipo de práticas poderiam estimular um melhor entendimento de nossa condição atual de criadores de redes e criadoras nas redes?

Podemos construir redes alternativas à Internet, auto-sustentáveis, nômades, sem a benção de corporações. Áreas livres. Não só redes virtuais, mas físicas. Espaços de troca e experimentação. Hacklabs. Hacker Spaces. Oficinas. Laboratórios. Coletivos.

6) O que é MSST?

Fazedores, curiosos, artistas, hackers, pessoas que perguntam: “cadê o meu satélite?!”. Aqueles que desejam entender o que é um satélite e para quê precisamos de um. Que querem construir o seu próprio, querem descubrir como lançá-lo, seja ele no espaço ou na vila. Querem um satélite, mas não podem tê-lo ainda, já, agora. Então o que fazer? Esperar até que possamos alugar um foguete e jogá-lo no vácuo espacial?! Conectar em um satélite corporativo/governamental qualquer e usá-lo?! Promover a reforma agrária espacial?! Criar satélites horizontais, repetindo mensagens com rádios AM/FM, com espelhos, fumaça, pombos, código morse, [lata]—-fio—-[lata]?! Cobaias que querem ser astronautas, cansadas de serem condicionadas às latitudes e longitudes de shopping centers e lojas departamentais.

7) Que perguntas o MSST deveria fazer pra sociedade?

O que é um satélite para você? Você precisa de um? De quem são os satélites que existem hoje? Porque eles têm tantos e nós não temos nenhum? Como podemos construir o nosso satélite? Para quê usaríamos ele? Qual deverá ser a primeira cobaia a ir para o espaço?


Vilson Vieira

vilson@void.cc

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[1] http://www.gadgetfactory.net/gf/project/avr_core

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