MSST entrevista Renato Fabbri

1) Como começou seu trabalho com software livre? Qual seu interesse atual neste
sistema colaborativo? Que você acha do hardware livre? Que acha do termo
“cultura livre”?
Era um final de ano em que estava me infurnando, estudando
diversidades em música e tecnologia, acabei por conta entrando em
contato com Linux e puredata. Em menos de uma semana estava com um
computador sem rede rodando Fedora 3 e os vários programas do pacote
Planet CCRMA (já tinha fedora 5 ou 6, eu que estava perdido ainda),
tentando aprender bash para colaborar em um projeto de síntese
distribuída de imagens e sons.
O sistema colaborativo permite que façamos parte de mais atividades
sem nos sobrecarregar. Permite que tenhamos uma dinâmica de troca mais
efetiva e menos bitolada. Também é uma forma de manter nosso ambiente
de trabalho mais saudável. Da mesma forma também colabora para uma
certa higiene mental, já que o individualismo foi-nos martelado tanto
desde nossos nascimentos até o dia de hoje.
Acho que o hardware livre está nos permitindo os primeiros
engatinhamentos para desfazer a dependencia total que temos de grandes
empresas e de poucos especialistas para o caso de querermos utilizar
praticamente qualquer tecnologia de circuitaria eletrônica. Também
permite nos qualificarmos para construir dispositivos. EED (Entrega,
Ensina, Desmistifica).
O termo “cultura livre” virou ícone das aspirações desta II revolução
francesa que estamos passando, levantando os ideais de liberdade,
igualdade e fraternidade. Só que desta vez o baguiu é loco dimais. Há
um consenso silencioso de que mais do que um rearranjo das estruturas
sociais em defesa de uma classe dominante, estamos podendo nos
representar e organizar, procurar nossos interesses e ficarmos *menos*
sujeitos ao mote contínuo da propaganda. Isso, unido ao reconhecido
aumento da circulação das mídias nos leva à idéia da cultura livre.
Acho um termo bom e apropriado. Como dizem, “e é que é por isso é que
recupito sarrupita”.
2) Você considera-se um artista? De alguma forma você interage com circuitos
artísticos, mas parece estar interessado em ir além. Que circuitos são estes?
Considero você um artista. Eu também. Este fetichismo quanto às artes,
quanto à figura do artista é, como diria Giowani Guimarolzzo, “SE NÃO
TÁ ESTRAGADO O BAGUIU É TÁ RUIM” (Decannet n3). Na verdade, todo este
fetichismo quanto ao profissional (em qualquer área) é muito negativo.
É bom que gostemos de nos dedicar a atividades úteis e interessantes,
mas bem.. Na renascença a família Médici em Florença que começou com
essa de mitificar o artista. Os comerciantes nem gostaram não,
imagina, elevar o produto que eles comercializavam à categoria de
sublime quase divino nem deu lucro não… E ainda estamos nessa até
hoje.
Os “circuitos” da conquista da realidade, do eu, e da expressão humana.
3) O que você pensa sobre nossa localização nos mapas? É possível
identificarmos um fluxo comum de pessoas que vão além de nacionalidade e
fronteiras interagindo – como é possível reconhecer-nos?
Se eu gosto de colecionar femor de cavalo, podemos montar uma
sociedade dos colecionadores de femor de cavalo e esta só vai ter
representatividade e alguma possibilidade de ação se tiver dimensões
além fronteiras nacionais.
Reconhecemos-nos pelos nossos interesse e nossas posturas. Citação em
ordem correta de ocorrência e inversa de importância.
4) O que é a ciência hoje? Como ela pode ir além das idiossicrasias culturais e
lingüisticas de cada localização geográfica? Como ela pode ir além dos
interesses geopolíticos e corporativos da globalização alienadora de
subjetividades?
Ciência hoje? É uma revista eu acho, ouvi falar. Mas também é uma
forma de bruxaria poderosa, que, para funcionar, precisa de crença e
esta, para ser forte, tende a abolir outras formas de entender a
realidade. Isso, claro, segundo os escritos de Frotto Josias. Também é
uma indústria. Também é um eixo de organização social e política,
principalmente através da academia. Por fim, entendo que seja um canal
eficiente de troca de conhecimentos. Tem mais coisa, mas é isso aí.
Em qualquer departamento, para dominuir os interesses geopolíticos e
corporativos, a solução é descentralizar.
5) O que podemos pensar para além da Internet? Que tipo de práticas poderiam
estimular um melhor entendimento de nossa condição atual de criadores de
redes e criadoras nas redes?
Coletivos com ações em pessoa com fins materiais, como as comunidades,
as vilas etc. Também está sendo cogitado com alguma frequencia a
criação de espaços de imersão para aprendizado e criação. (uma
inclusive envolvia a idéia de ocupar um vagão de um trem e viajar
pelas estradas de ferro criando e apresentando quando possível).
Quato às praticas que poderiam nos ajudar a entender nossa atuação
como criadores.. Além de catar milho com propostas puntuais, sugiro
rodar até ficar zonzo, ou ficar em meditação, ou jejuar, ou mesmo
fazer uso de algum cipó e alguma folha. Uma dos mais importantes
desenvolvimentos culturais da atualidade, imho, é a quebra do tabu
quanto à alteração de consciência. Pois isso nos ensina sim e o que
lesa é o medo (grande parte dos gregos viam na coragem a maior das
virtudes), o problema é a falta de instrução para fazer uso destes
estados, o que leva as pessoas a fazerem de qualquer jeito, no caso a
se intupirem de substâncias psicoativas sem arrazoar nem tentar
propositadamente alcançar algum entendimento. Esta é minha dica para
estimular praticamente qualquer melhor entendimento, inclusive a de
nossa condição atual de criadores de redes. Também posso propor grupos
de discussão, mas eu tenho um nome a zelar.
6) O que é MSST?
Movimento dos Sem Satélites é um mote e movimento colaborativo que
propões vivências e ações com vistas à apropriação das tecnologias e
da tomada de consciência de nossa condição como meros consumidores.
Tem mais coisa, mas pra mim é isso ao menos por hora.
7) Que perguntas o MSST deveria fazer pra sociedade?
Cadê nosso satélite?? De quem é cada satélite do qual precisamos fazer
uso diáriamente? Se estas coisas são de uso coletivo ou do próprio
governo, porque não temos tudo aberto, desde os componentes até
informações sobre o fluxo de dados. Que tal você se apropriar das
tecnologias que puder e auxiliar a emancipação tecnológica dos grupos
sociais em relação às fantasmagóricas empresas e pessoas que ninguém
nunca viu.
_o_o_ oOo _o_o_