Caderno Submidiático 7

Como começou seu trabalho com software livre? Qual seu interesse atual neste
sistema colaborativo? Que você acha do hardware livre? Que acha do termo
“cultura livre”?

Eu comecei a ler sobre software livre muito antes de usar software
livre. Lá por 2000 e 2001, tava começando a tentar entender as
possibilidades de criação e inovação colaborativas entre pessoas que
se relacionavam por redes. Ao mesmo tempo em que o Hernani Dimantas me
passava umas dicas de leitura (manifesto cluetrain, hakim bey,
outros), eu ia aprendendo um pouco sobre o software livre em termos
mais conceituais. Quando resolvi tentar transformar essas ideias
colaborativas em um sistema de “gestão da inovação” (foi mal, eu
trabalhava em empresa e falava a língua delas nessa época) é que pude
ter um contato mais direto com o código aberto e livre. Instalei e
estudei o Zope. Montei uns sisteminhas toscos. Conheci um script
pronto de CMS que imitava o slashdot e outro que implementava um
“wiki”, que na época eu nem sabia o que era. Gostei daquilo, mas
achava o zope muito pesado.

Comecei a brincar com scripts livres que rodavam em PHP: phpnuke,
postnuke, b2, nucleus e outros. Em 2002 com o projeto Metá:Fora e a
necessidade de fazer um site pra organizar informação, configurei um
phpwiki e isso foi o começo de uma história longa que entre outras
coisas desembocou na MetaReciclagem.

Quando montamos o primeiro laboratório de MetaReciclagem, no começo de
2003, é que comecei a usar software livre como meu sistema operacional
principal, e aprendi um monte observando a galera usar. Faz tempo que
não sinto falta de sistemas proprietários no dia a dia. Na prática, eu
uso bastante software livre, mas não sou um programador – no máximo eu
copicolo umas coisas, mas no geral sou só um usuário fuçador.

Hardware livre eu acho interessante por um monte de meta-motivos – não
necessariamente pelo hardware em si, mas pelas possibilidades de
aprendizado e inovação distribuída que ele abre. Acho que tem muitos
caminhos aí que questionam uma certa centralização e um certo
encapsulamento da ideia de inovação – uma crítica ao complexo
industrial que afirma que essa inovação e esa criatividade só podem
acontecer nas etapas iniciais da cadeia de produção. Imagino que vai
haver (já está havendo?) um ponto em que parte da indústria vai se
apropriar dessas ideias e conceitos, e passar a fabricar produtos que
já incorporem essa indeterminação. Outra parte da indústria parte para
o caminho contrário – controlando ao máximo, coibindo a
ressignificação e a apropriação. Não sei bem o que acontece depois,
mas nesse cenário a parte da indústria que parte para a abertura é bem
melhor do que a outra. Fica a pergunta de como a gente – e quem é esse
“a gente” é ainda outra questão – se relaciona com essa indústria que
busca a abertura. Vamos combater? Vamos ajudar? Vamos nos vender? Eles
pelo menos sabem que a gente existe?

A cultura livre ainda ficou na promessa. Tem uma possibilidade de
dinamizar esquemas de criação e produção muito mais profundos, mas a
galera ainda tem medo de liberar os materiais brutos, as referências,
os insights. Ficam só nessa onda de liberar material pronto, e isso
não é liberdade de verdade – é muito mais uma estratégia de divulgação
em tempos de hiperconexão. Mas de todo modo, esse hype tem pelo menos
o crédito de ter questionado o mito do autor renascentista, do gênio
que se isola, cria e fica rico com isso. Isso pode ser impressão minha
à medida que o tempo passa, mas quero acreditar que hoje em dia a
molecada com banda tá menos preocupada em assinar contrato com
gravadora e ficar milionária. Não sei bem, o que tu pensa disso?

Você considera-se um artista? De alguma forma você interage com circuitos
artísticos, mas parece estar interessado em ir além. Que circuitos são estes?

Não me considero um artista, mas de maneira geral sufixos como -ista,
-eiro, -or são uma coisa que eu não sou de usar muito. Eu já quis ser
- talvez nessa ordem – guitarrista, engenheiro de som, fotógrafo,
videomaker, animador, diretor de arte, diretor de criação, redator,
webdesigner, consultor, escritor e outras coisas. Lá pelos 22 eu parei
com essa ideia de querer ser alguma coisa.

Mas a arte é uma coisa que passou longe da minha formação, e uma ideia
com a qual eu só passei a me relacionar há poucos anos. No começo da
MetaReciclagem, eu tinha um pé atrás com “a arte” porque não entendia
muito a relevância dela. Hoje entendo que, se existe um abismo entre
os circuitos artísticos e o mundo lá fora, também existe um grande
potencial para costurar possibilidades efetivas de construção de
conhecimento, formação de imaginário, exploração simbólica e
transformação de consciências através de pontes entre a arte, o
ativismo e os projetos sociais.

Os circuitos com os quais eu quero trabalhar na verdade ainda estão
sendo criados. São essas pontes, hoje mais possíveis com o enredamento
de tudo, que exigem uma grande flexibilidade e uma grande disposição
para o diálogo, mas que têm o potencial de dar maior aprofundamento
para uns e maior penetração para outros.

O que você pensa sobre nossa localização nos mapas? É possível
identificarmos um fluxo comum de pessoas que vão além de nacionalidade e
fronteiras interagindo – como é possível reconhecer-nos?

Nós quem? Conhecer é um processo de um a um – existem, claro, indícios
e sinalizações, mas a ideia de “mapa” supõe uma objetividade que não
acho que sirva pra esses encontros e reconhecimentos. Mapas são coisas
muito mais simples e limitadas. Também – se o mapa é o produto da
cartografia, o que é que geram os descartógrafos? Eles precisam gerar
alguma coisa?

O que é a ciência hoje? Como ela pode ir além das idiossicrasias culturais e
lingüisticas de cada localização geográfica? Como ela pode ir além dos
interesses geopolíticos e corporativos da globalização alienadora de
subjetividades?

A ciência é um leque gigantesco – vai desde gerar inovação para o
complexo industrial-militar, desenvolver tecnologias para melhorar a
vida e diminuir o impacto humano no planeta, até a aplicação de
metodologias para gerar e compartilhar conhecimento para diferentes
problemas. A ciência em geral não vai ir além dessas limitações,
porque ela não é um corpo homogêneo. O que acho interessante, seguindo
o tema do próximo interactivos que acontece mês que vem em Madrid, é
pensar em como essas práticas que vêm aí do hardware livre, do
software livre, podem influenciar no movimento que tá rolando, da
migração da “ciência de garagem” para a “ciência de bairro”. Em outras
palavras, talvez o que a gente tem feito por essas bandas possa ajudar
a transformar o imaginário desde um modelo de inovação no espaço
particular – muitas vezes motivada pela mitologia do sucesso na
sociedade do consumo – para um modelo de inovação no espaço público, e
voltada para solucionar problemáticas desse espaço público. Se trata
inclusive de repensar a própria ideia de espaço público, que nas
grandes cidades do Brasil e do mundo não é tão público assim.

O que podemos pensar para além da Internet? Que tipo de práticas poderiam
estimular um melhor entendimento de nossa condição atual de criadores de
redes e criadoras nas redes?

As redes são muito anteriores à internet. A gente tem visto a internet
dar muito mais força para redes que já existiam, e isso em si já é uma
vitória – até uns seis anos atrás, essas redes paralelas eram coibidas
em projetos públicos de inclusão digital, hoje são incentivadas. Isso
é sinal de uma transformação mais profunda, talvez de um
desaparecimento total das fontes “confiáveis” de informação. Isso tem
consequëncias positivas e negativas. Agora, que tipo de práticas? Acho
que a gente já tem feito muitas delas, com tanta conversa online sobre
conversa online, com essa entrevista, com os encontros & debates. Mais
gente tem que participar, mas aí é como lá em cima – vai chegando 1 de
cada vez.

O que é MSST?

Ainda tô tentando entender, como todo mundo.

Que perguntas o MSST deveria fazer pra sociedade?

Que parte da sociedade?

O que é MetaReciclagem? from luarembepe on Vimeo.